Obama. Mas pode chamar de Bush
Ao investigar jornalistas e espionar cidadãos em nome da Segurança Nacional, Barack Obama se aproxima cada vez mais do legado de George W. Bush - e esquece das suas promessas de campanha
Em um discurso no último dia 23, na Universidade de Defesa Nacional, Obama defendeu as políticas de contraterrorismo de seu governo, inclusive o uso dos famigerados aviões não tripulados, os drones. Em determinado momento, reiterou o “orgulhoso compromisso com liberdades civis” dos Estados Unidos para com seus cidadãos. “Nos próximos anos, vamos trabalhar duro para obter o equilíbrio apropriado entre nossa necessidade por segurança e a preservação das liberdades que nos fazem quem somos.”
>>Obama defende programa que monitora telefonemas de cidadãos
Mais uma vez, e assim como fazia George W. Bush, Obama usou a retórica para maquiar a realidade. Na última quinta, dia 6, o jornal britânico The Guardian obteve documentos que revelavam que a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos criou um banco de dados com ligações telefônicas e mensagens de voz de milhões de cidadãos, coletados de pessoas que utilizam o serviço da operadora Verizon – a segunda maior do país. um tribunal sigiloso, a Corte de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisa, na sigla em inglês), obrigou a companhia a fornecer ao FBI (a polícia federal dos EUA), informações "constantes e diárias" sobre ligações feitas dentro dos EUA e também para o exterior. A autorização concedida pela corte secreta ao FBI data de 25 de abril, uma semana depois do atentado na Maratona de Boston. A decisão é válida até 19 de julho e, de acordo com o Guardian, não há confirmação sobre ordens semelhantes referentes a outras operadoras de telefonia. Em nota oficial, o governo admitiu a medida e tentou justificá-la dizendo que se trata de “uma ferramenta muito importante para proteger o país de ameaças terroristas”.
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Não foi só isso. O Guardian revelou que a NSA tem acesso direto aos
sistemas de grandes empresas da internet, como Microsoft, Yahoo, Google,
Facebook, Apple e outras. Por meio de um programa chamado PRISM
(prisma, em inglês), que acessa diretamente e sem autorização judicial
os sistemas e os perfis de usuários dos sistemas das companhias. O
sistema intercepta o histórico, o conteúdo de e-mails, as conversas
online, os vídeos e as transferências de arquivos dos usuários de todo o
mundo em sistemas que operem sob a base legal dos Estados Unidos, sem a
necessidade de autorização judicial. Quando a NSA encontra uma
comunicação considerada suspeita, ela é separada e registrada como
"informe". Segundo o relatório da agência, mais de 2.000 informes são
acumulados por mês. Desde que o programa entrou em vigor, em 2007, foram
emitidos cerca de 77 mil informes.>>Steve Coll: "O estado de segurança americano cresceu demais com o 11 de setembro"
Essa é mais uma crise que vem minar o governo Obama. A confirmação de que o governo espiona os cidadãos americanos é um constrangimento ainda maior para o presidente do que os grampos na agência de notícia Associated Press. “O governo Obama perdeu toda a credibilidade que tinha ao mostrar que tem uma agenda igual a de George W. Bush e usa os mesmo meios que ele usou”, escreveu Stephen Holmes, professor de Direito Constitucional da Universidade de Nova York. “É ainda mais revoltante porque Obama mostra ser hipócrita ao defender a liberdade de imprensa e as liberdades individuais e espionar cidadãos e jornalistas.”
Obama tem se equilibrado na corda bamba das crises desde o começo do seu segundo mandato. As críticas da oposição só aumentaram nos últimos seis meses, depois de uma série de deslizes da Casa Branca. Desta vez, o presidente americano terá de encarar as críticas da sua própria base eleitoral, que o elegeu para por fim ao legado de Bush. Um legado ao qual Obama parece dar continuidade.
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