Obama, Orwell e a vida dos outros
De algum lugar, George Orwell está vigiando e talvez até gostando. As vendas do seu 1984, um livro supostamente de ficção, dispararam nos últimos dias, em razão das revelações sobre a existência dos Estados da Vigilância da América, ou seja, o aparato de xeretagem telefônica e na Internet do governo Obama como parte da luta antiterrorista, aparato herdado e ampliado da era Bush. Como eu já escrevi, os dois big brothers.
O clássico de Orwell (um dos seus clássicos), publicado em 1949, é sempre um sucesso, mas agora há um interesse renovado. Na Amazon, alta de 70% nas vendas. Obama faz o que pode para vender a narrativa de que seu governo sabe calibrar as coisas na busca penosa entre segurança nacional e liberdades individuais, estando longe das imagens sinistras associadas aos alertas orwellianos.
Orwell advertiu sobre os perigos de um poder burocrático fora de controle, mas, de fato, reconhecia que a intrusão do estado era necessária para nos proteger. O grande recado claro que é sobre o Big Brother. Ele está observando você. O estado monitora constantemente os movimentos dos cidadãos. De acordo com Michael Shelden, biógrafo americano de Orwell, uma vasta rede de vigilância era o que o jornalista e autor britânico temia. Seu livro cristalizou o que seria, o que é, o que será a vida sob regimes totalitários.
Em 1984, Orwell destilou suas observações sobre a Rússia stalinista, a Alemanha nazista e sua própria experiência como radialista (fez parte do esforço de propaganda ao trabalhar na BBC durante a Segunda Guerra) e funcionário colonial britânico na Birmânia (hoje Mianmar).
Orwell foi policial na Birmânia e observou que quanto mais meticuloso o arquivo sobre os indivíduos, melhor para o estado. Não é à toa que 1984 seja basicamente a história sobre um estado policial. Aliás, o próprio governo britânico espionou Orwell, de 1929 até sua morte em 1950, conforme foi revelado em 2007.
O biógrafo Shelden diz que Orwell não ficaria surpreso com as justificativas governamentais de hoje para a crescente vigilância policial devido à ameaça terrorista. Mas, Shelden acrescenta que Orwell ficaria impressionado com o papel de atores privados na coleta de informações privadas. E aqui não só as corporações, como Google e Facebook, mas cidadãos comuns, proles, no jargão de 1984. Os proles vigiam não apenas para o governo, mas uns aos outros, xeretando a vida dos outros. Somos todos informantes.
O jornal The Wall Street Journal costuma praguejar contra o big government. Nesta polêmica assumiu a posição de que os detratores do governo Obama estão fazendo muito drama, muita frescura. No editorial de segunda-feira, com o título “Big Brother and Big Data”, o jornal diz que o presidente não deveria se desculpar tanto para as pessoas que imaginam um governo compilando dossiês e escutando chamadas telefônicas como se os EUA fossem uma versão da Alemanha Oriental do premiado filme A Vida dos Outros.
Aqui o editorial está afiado para atacar esta papagaiada de que os EUA estão se tornando um opressivo estado policial. Daniel Elsberg, o analista que vazou os Papéis do Pentágono, sobre a guerra do Vietnã, há mais de 40 anos, adverte que os EUA correm o risco de se transformarem em United Stasi of America, um trocadilho com a polícia secreta do personagem do filme, o capitão Wiesler.
Mas ai o editorial desgalha. Na novilíngua do jornal, os libertários deveriam ter medo mesmo de outro ataque terrorista ao estilo 11 de setembro ou com armas de destruição em massa. Aí sim, a resposta governamental seria a criação de um estado policial. A atual garimpagem de dados, arremata o Wall Street Journal, salva vidas e desta forma protege contra intrusões bem maiores na liberdade individual.
Final hiperbólico, como tanta coisa que você deveria estar observando por aí nesta controvérsia a respeito da garimpagem de dados sobre a sua vida e a dos outros.
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